Após realizar todos os
exames pré-operatórios, no dia 09 de julho de 2003 fui internada no hospital
Santa Rita. Enfim, eu estava pronta para encarar o inevitável, a Mastectomia
total do seio direito.
Fui internada na ala do SUS
em um quarto com capacidade de até 04 pacientes, entretanto quando cheguei pela
manhã no quarto, na cama ao lado da parede próximo a porta, já havia uma
paciente que havia sido operada e estava em recuperação, seu nome era Dª Julia,
uma simpática senhora pequenininha de aproximadamente 70 anos, tinha traços
humildes e de olhar meigo e cativante. Na outra cama estava Dª Joana,
aparentava ter uns 50 e poucos anos, também já havia sido operada e era bem
divertida. Meus aposentos seria a 3ª cama ao lado da Dª Joana e a minha cirurgia
estava prevista para o dia seguinte.
Fiz amizade rapidamente com as duas e
conversamos sobre muitas coisas,
No final da tarde, por volta
das 18hs chegou a paciente que iria ocupar a última cama vaga ao lado da minha
próximo a janela. Seu nome era Rita, ela chegou acompanhada pelo seu esposo,
ambos estavam muito apreensivos, e exatamente quando eles chegaram a Dª Joana
estava reclamando do jaleco do hospital que ela estava usando, pois tinha que
levantar e ainda segurar o jaleco na parte de trás para não aparecer suas
partes intimas, eu e Dª Julia estávamos rindo da situação quando a Rita chegou.
Após as devidas apresentações, a Rita ficou um pouco mais calma e disse ao seu esposo
que ainda bem que ela estava em um quarto com pessoas alegres e que todas nós
iríamos sair dali curadas.
A Rita, era uma mulher
bonita, alta de olhos pretos e tinha os cabelos bem curtinhos e ruivos,
acredito que não tinha 50 anos.
Ela olhou para seu esposo e
disse que iria na enfermaria tirar algumas dúvidas e que ele poderia aguarda-la
ali. Enquanto isso, seu esposo conversou conosco dizendo que a Rita havia sido
diagnosticada com câncer, e que estava fazendo quimioterapia, porém havia abandonado
o tratamento a alguns meses e seu quadro clinico havia piorado na noite
anterior, e por isso ela tinha sido internada as pressas. Disse que a amava
muito e que como não poderia ficar ali com ela (internações pelo SUS não é
permitido que o acompanhante durma no hospital), nos pediu para cuidar dela e
que pela manhã estaria de volta.
Minha cunhada Tatiana ficou
comigo aquele dia até o limite do horário das visitas, e me recordo que quando
o jantar chegou para os pacientes, havia papa de milho verde de sobremesa. Eu, Dª
Joana e Dª Julia não perdemos tempo, comemos tudo.
A Rita estava um pouco
cismada com tudo e ficou no cantinho dela, sem mexer na comida, dizendo que não
tinha fome. A Tatiana perguntou se ela não queria pelo menos a sobremesa, e se
ofereceu para servi-la visto que o soro dificulta muito a alimentação.
Ela aceitou com um sorriso
tímido nos lábios, e enquanto a Tatiana dava a sobremesa para ela continuamos
conversando alegres e na expectativa de irmos para casa logo.
A Rita após agradecer muito
o carinho da Tatiana, começou a interagir conosco e começou a contar um pouco
sobre a sua vida, disse que se arrependia de ter abandonado o tratamento e que se
não o tivesse feito talvez estaria melhor e sentindo menos dores.
Já era por volta das 20hs
quando a Tatiana teve que ir embora, a Dª Julia e Dª Joana adormeceram logo e as
enfermeiras iniciaram a minha medicação através do soro para a cirurgia no dia
seguinte.
A Rita estava sonolenta ao meu lado, porém não conseguia ficar
quieta, como se algo a estivesse incomodando muito. Ela olhou para mim e me
pediu para que levantasse um pouco a cabeceira de sua cama para ver se
melhorava aquele mal estar, me levantei segurando o meu soro e suspendi um
pouco a sua cama. Voltei a me deitar e ela continuou inquieta, então me
levantei novamente e fui até o local onde as enfermeiras ficavam de plantão, me aproximei de uma enfermeira que estava sentada fazendo algumas anotações e disse que a Rita, estava muito inquieta e queria que levantasse mais a
cama dela, a mesma foi muito dura comigo e disse:
- Não mexa com ela, depois
vou lá.
Voltei para o quarto e me
deitei, o remédio começou a fazer efeito e eu estava ficando muito sonolenta,
porém olhei para Rita e vi que ela estava com a cabeça virada para o meu lado e
que escorria um liquido escuro da sua boca, levantei correndo e fui novamente chamar
a enfermeira.
A enfermeira dessa vez veio,
e me disse para ficar deitada e me recordo que aplicou mais algum medicamente
no meu soro e foi cuidar da Rita, limpou seu rosto e saiu apressada para chamar
um médico.
Não demorou muito e dois
médicos entraram com a enfermeira, conversavam em códigos pois eu não entendia
nada. Cada vez eu ficava mais sonolenta, mas me esforçava para continuar lúcida
e entender o que estava acontecendo com a Rita.
Fui vencida pelo sono e
adormeci, entretanto meu sono foi muito tumultuado, pois havia muitos barulhos
e movimentos de pessoas no quarto o tempo todo.
Quando acordei pela manhã,
olhei para o lado da Rita e havia um biombo que separava a minha cama da dela,
e havia médicos e enfermeiras com ela. Olhei muito confusa para a cama da Dª
Joana e Dª Julia e não as vi lá.
Uma enfermeira percebeu que
eu havia acordado e me disse para sair do quarto, rapidamente e sem entender
nada, peguei meu soro e fui para o corredor e lá vi as minhas colegas de quarto
e outros pacientes, todos olhando para dentro do nosso quarto como se
estivessem esperando por notícias.
Dª Joana olhou para mim
e disse:
- Como pode você não acordar
com tudo o que aconteceu nesta noite?!
Eu indignada perguntei:
- O que está acontecendo?
Ela disse:
- A Rita passou mal, começou
a vomitar um sangue preto, só sei que os médicos vieram com muitos aparelhos e
tentaram reanima-la a noite toda, mas ela não aguentou e morreu agora pela manhã. Agora eles estão lá, fazendo
as últimas coisas para tirar o corpo do quarto. Nós teremos que esperar aqui
até que limpem o quarto e possamos voltar.
Naquela hora, me bateu uma
tristeza tão grande que as lágrimas foram inevitáveis, me dei conta que aquela
confusão que eu achava que era sonho eram os médicos tentando salvar a vida da Rita
ali mesmo ao meu lado.
Olhei para o corredor do
hospital e vi minha cunhada Tatiana junto com minha irmã Carmem chegando para
me acompanhar naquele dia, e ambas com sorriso nos lábios esperando encontrar as
04 mulheres alegres e otimistas, conforme tinham nos deixado na noite anterior.
Infelizmente naquele momento éramos apenas 03 pacientes a Rita não iria voltar para casa.
Reflexão:
Naquela noite, o esposo da Rita
havia ido embora na esperança de encontrá-la na manhã seguinte com vida e
provavelmente muitas palavras não foram ditas a ela, muitas coisas não foram
feitas na esperança do dia seguinte, mas para a Rita não houve o Dia seguinte.
Então aproveitemos o hoje,
não percamos nenhuma oportunidade de reparar erros, de dizermos às pessoas o quanto as
amamos , de passear com a família, de curtir os amigos, enfim
não tenham a CERTEZA do Dia seguinte, pois ele não é nosso é de Deus.
Um forte abraço a todos!
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2 comentários:
Obrigado pela coragem de compartilhar sua vida conosco,que DEUS TE ABENCOE ,bjsssss sua irmã que te ama hoje e sempre.
Claudia, compartilhar a minha trajetória nesta batalha contra o câncer, tem sido gratificante quando percebo que estou ajudando vidas. Beijos
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