Não sei precisar quanto
tempo fiquei ali naquela sala de cirurgia, o que me recordo que foi no dia 10
de julho de 2003, era de manhã quando cheguei ao centro cirúrgico e que estava
de noite quando retornei ao quarto.
Durante o período em que estive
ali deitada naquela cama do centro cirúrgico, eu simplesmente apaguei e não vi
nada. Me recordo de alguns flashes de algumas cenas em que estava deitada em
uma antessala com uma máquina que apitava no meu ouvido, um pi.. pi... pi... pi...
pi... piiiiiiiiii (era um aparelho que media os batimentos cardíacos) e no
momento do som intermitente do piiiiiiiiii eu ouvia a voz da enfermeira me
mandando respirar:
- Respira, respira, respira.
Acredito que quando o
aparelho começa a ficar em um som intermitente, é porque estamos adormecendo em
um sono muito profundo e com sensação agradável de paz, imagino que seja nesta
hora que todos brincam e falam para não seguir a luz branca, senão você morre.
(Não é bem assim, risos).
Mas acreditem, que dá
vontade de seguir a luz, a isso dá, pois é uma sensação de paz muito grande que
não dá para explicar.
Bom, depois de começar a
recobrar a consciência na antessala do centro cirúrgico fui levada de maca para
o quarto. Senti todo o meu peito enfaixado, mas não dava para ver direito como ficou,
pois a faixa mantinha os seios nivelados.
Cheguei no quarto e fui
colocada na cama, estava ainda sob efeito da anestesia.
Nesta noite, minha mãe e tia
dormiram comigo no hospital.
Durante a noite muitos
remédios foram colocados no soro para aliviar a dor.
Quando amanheceu o dia meu
médico veio me visitar e disse que a cirurgia havia sido um sucesso, mas que
infelizmente foi inevitável a realização da mastectomia total do seio, pois o tumor
estava com 15 cm.
Ele permaneceu por ali por
mais alguns minutos, mas eu já não o ouvia mais, porque meus olhos estavam
voltados para a faixa e tentando imaginar como havia ficado, era impossível
perceber diferenças pois meus seios estavam bem enfaixados e nivelados.
Mais um dia se passou, com muitos medicamentos
sendo inseridos no meu soro, e quando chegou à tarde a enfermeira chegou e
disse que iria retirar a faixa para fazer um novo curativo. Nesta hora gelei,
eu não queria ver o resultado da cirurgia, eu ainda não estava preparada para o
impacto da realidade.
Optei por ficar de olhos
fechados enquanto ela fazia os curativos, depois que a faixa foi recolocada ela
me disse que voltaria para me dar banho.
O banho foi daqueles de
cintura para baixo, sem molhar e/ou desenfaixar o curativo.
No dia seguinte, as dores
haviam diminuído um pouco e a faixa continuava lá.
Um dia antes de ir para casa
(fiquei internada por 5 dias) era chegada a hora de tomar banho sem a ajuda da
enfermeira, e a orientação era retirar a faixa e molhar levemente o local.
Minha cunhada foi comigo
nesta difícil tarefa, no banheiro ela retirou lentamente a faixa enquanto eu
olhava para o teto. O choque foi inevitável quando olhei para baixo e me vi ali
mutilada e cheia de pontos, senti uma tontura e confesso que dei trabalho
naquela hora.
Somente as mulheres que já
passaram por isso irão entender o sentimento que se tem nesta hora, aquele buraco
no peito com marcas e cicatrizes se transforma em uma dor de alma.
Parece que não seremos mais
capazes de sermos mulheres novamente, e que por resto da vida estaremos marcadas,
frágeis e incapazes de reagir contra esta doença.
Para que você possam
entender do que exatamente estou falando, busquei e localizei na internet fotos
de uma matéria publicada no site www.professorescolastico.com.br
tendo como fonte JBelmont .
São imagens fortes de bravas
mulheres, que como eu se despiram da vaidade e orgulho com o objetivo de
conscientizar sobre a importância da prevenção do câncer de mama, e que se
todos olharem para estas fotos com os olhos da alma perceberão ao invés de
mulheres frágeis, belíssimas mulheres, guerreiras e vitoriosas apesar de todas
as marcas físicas e emocionais que são provocadas pelo câncer de mama.
Reflexão:
Não julguem pela aparência
ou pela primeira impressão, pois cada um carrega consigo uma história de vida,
que muitas vezes não são contadas.













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